quinta-feira, 28 de março de 2019

Tempo.

Talvez a gente só precise de um tempo pra respirar.
Tempo pra colocar as ideias no lugar ou pra deixar os pensamentos irem pros caminhos que eles escolherem trilhar.
Tempo pra deixar o coração bater por aquilo que ele ansiar.
Hoje eu escolhi reservar um tempo pra tentar me salvar.

Juliana Moretti



Alma.

Foi nos pequenos gestos que eu conheci a grandiosidade de alma de muitas pessoas.
O contrário também aconteceu, foi em gestos grandiosos que conheci a miséria de outras.

Juliana Moretti

domingo, 3 de março de 2019

Sobre se importar..

Chega um ponto da vida da gente que simplesmente paramos de nos importar. 
Não naquele sentido de tocar o famoso "foda-se" só e tudo bem, não é por aí. 
A gente simplesmente para de se importar com o que vão pensar, para de se importar se parece fraco/bobo/ingênuo/HUMANO por demonstrar afeto e interesse pela vida daquela pessoa que a gente gosta, para principalmente com esses joguinhos de desinteresse, daqueles do tipo: "hoje vou me fingir indiferente com fulano pra ver se ele volta correndo pra minha vida". 
Amigo(a), as vezes a pessoa volta sim, viu? Não porque ela tá interessada em você, mas porque tá interessada no jogo. 
Então pra que se importar com esse tipo de coisa? 
Se você gosta, ainda que com receio, do seu jeito, demonstra, dê a chance da pessoa saber que você tá ali, mesmo que ela não esteja pra você. 
Se não gosta, vai embora ou demonstra que seu real interesse é outro, deixa a pessoa ter a chance de conhecer alguém que possa gostar dela de verdade, vai atrás de ter a oportunidade de gostar de alguém de verdade também. 
Mas acima disso tudo, goste antes, E MUITO ANTES, de você, SEMPRE. 
Porque aquela máxima é bem real: Antes de você ser feliz com alguém, você precisa ser feliz sozinho. 
A gente precisa sim de outras pessoas, não vivemos completamente sozinhos nesse Universo, mas a gente precisa se bastar, porque só alguém inteiro pode somar e se deixar somar na vida de alguém.
Sobre relacionamentos? 
Não entendo nada, sou a pior criatura pra aconselhar e até mesmo pra estar falando a respeito. 
Mas sobre ser humana, se importar, demonstrar, estar aberta ao diálogo e ser taxada de boba, nisso modéstia parte, eu sou ótima. 
Eu só vou embora de corações onde não me sinto mais bem vinda, porque morar no coração de alguém é uma responsabilidade muito grande, mas também é uma das melhores sensações que existem. Normalmente a gente vai fazendo morada ali tão devagar que nem percebe, mas precisa estar atento pra perceber quando é chegada a hora de arrumar as malas e partir ou de desfazê-las de uma vez e fazer daquele coração o seu lar.

Juliana Moretti

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Hoje não dá

Como explicar o que aconteceu?
Eu não sei
Foi como um desencanto.
Perdi a graça
E de repente me vi terrivelmente só.

Senti um aperto no peito
Seguido de um leve incômodo na garganta
Quando vi, eu já não via mais
Os olhos ardiam.
Os braços caiam sem forças ao lado do corpo
As pernas começavam a fraquejar
E outra vez eu me via nesse lugar tão familiar
De volta ao não tão saudoso lar.

Eu não queria ficar aqui
Mas para onde ir?
O mundo parecia não ter lugar pra mim.
Eu haveria de ser o meu próprio lar,
Ser a minha força,
Ser o meu refúgio,
A minha própria salvação.

Estar dentro da própria cabeça nunca foi confortável
Mas de repente pareceu seguro.
Mais seguro do que em corações que nunca souberam amar
Ou até mesmo dentro do próprio coração
Que se encontrava completamente inabitável.

Essa luta vinha se tornando cansativa
Essa luta contra a própria escuridão
Essa luta exaustiva pra não deixar de ser luz.
Com a escuridão sempre a espreita
E a luz sempre a um passo de sucumbir.

Juliana Moretti

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Fragmentos de mim

Eu me lembro exatamente do vestido que eu estava vestindo.
Do perfume que exalava do meu pescoço.
Do batom que coloria os lábios do meu rosto tão sem graça.
Do sentimento que habitava meu peito naqueles tempos.
Eu me lembro até do velho e confortável sapato que eu calçava naquela manhã.
Os sapatos que eu mal sabia que me levariam de encontro a você.
Lembro de como eu me encontrava tão fria.
Lembro também de como foi ter seus olhos pousados em mim.
Eu me lembro, você fez com que eu me sentisse aquecida outra vez.

Hoje vesti novamente aquele mesmo vestido.
Passei o mesmo perfume.
Não quis colorir os lábios, não via motivo para tal.
Calcei aquele mesmo velho sapato.
Eu não sabia para qual direção eu iria.
Não sabia ao encontro do que eles poderiam me levar outra vez.
Eu tinha uma certeza, não seria até você.

O sentimento que habitava o meu peito já não era mais o mesmo.
Era semelhante, ainda era o vazio, ainda era a perda.
Mas o protagonista era outro, a história era outra.
O coração tentava um novo desapego.

Eu mesma já não me sentia tão fria
Tão pouco me sentia aquecida
Afinal você não estava mais aqui,
Mas você havia estado por aqui.
E ainda que não houvesse permanecido
Mesmo que tendo estado por um breve momento
Apenas por ter passado pela minha vida
Fez com que ao menos eu permanecesse morna.

Contemplo mais uma vez minha imagem no espelho.
Tenho a sensação de que fragmentos dessa composição
Já fizeram também parte de outra história.
Sorrio.
Mas que grande confusão isso poderia causar
Se alguém ao menos se importasse com o que eu digo.
Ou não.
Quem se importa com o que dizem os sentimentais?

Juliana Moretti




segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Anunciando o fim dos tempos..

Saudade tem nome de arcanjo.

Seu nome por todos os lugares.

Em todas as ruas por onde eu ando
Em cada canto que eu existo
Em cada pessoa que eu esbarro
Em cada pensamento do meu dia
Em cada palavra que não digo
Em todo esse sentimento
Que não dedicava a ninguém
Há tanto tempo.

Juliana Moretti



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

E quem é normal afinal?

Não me leve a mal
Talvez eu só tenha
Me aproximado demais
E quantas vezes
Já nos foi alertado
Que de perto
Ninguém é normal?

Juliana Moretti

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pequenas epifanias - Caio Fernando Abreu

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com a sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala do encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia a dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeria de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome".

sábado, 17 de agosto de 2013

Os prazeres de uma vida normal - Clarice Lispector

"Pois e eu que durmo tão mal, dormi de oito da noite até seis da manhã. Dez horas: senti um orgulho pueril. Acordei com o corpo todo aumentado nas suas células. Ah, isso é vida normal, então? mas então é muito bom!
E eu que nunca fiz luxo para comer, andei há um tempo fazendo dieta para perder uns quilos a mais. Aí experimentei uma vida anormal para comer. Andava exasperada como se outros estivessem comendo o que era meu. Então, de raiva e fome, de repente comi o que bem quis. E como é bom comer, dá até vergonha. E certo orgulho também, o orgulho de se ser um corpo exigente. Ah que me perdoem os que não têm o que comer; o que vale é que esses não são os que me leem.
Outro prazer que é normal é quando escrevo o que se chama de inspirada. O pequeno êxtase da palavra fluir junto do pensamento e do sentimento: nessa hora como é bom ser uma pessoa!
E receber o telefonema de um amigo, e a comunicação de vozes e alma ser perfeita? Quando se desliga: que prazer dos outros existirem e de a gente se encontrar nos outros. Eu me encontro nos outros. Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal."

LISPECTOR, Clarice. Os prazeres de uma vida normal. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro : Rocco, 1999.