quinta-feira, 9 de maio de 2013

Finito - Luiz Fernando Dias Prado

Não há mais sobre o que escrever 
O mundo tornou-se doido demais para que o lirismo desse conta de suas loucuras
Se nem mesmo o instrumento dos loucos, isolados, distanciados, gauches
É capaz de explicar o que é que há com o mundo 
Quem sou eu para tentar?

Fale-me de você. Vamos tomar um café e conversar sobre seu dia

Ao que parece só me resta cantar as coisas simples da vida
Coisas óbvias e com sentido, suficientemente lógicas para não acabar comigo
Pareço um pouco consternado, José?
É porque a festa acabou mesmo

Foi-se o tempo da orgia intelectual

Hoje todos os nossos poetas estão loucos
Ou então (foram) mortos 
Soterrados pela angústia que abateu-se sobre a alma de cada um deles
Por não conseguirem mais fingir que entendiam o mundo

Acabou. Todas as penas, canetas ou teclados devem ser guardados

Vamos tratar de arrumar preciosos cargos públicos que não nos enlouquecerão 
Chegando em nossas casas assistiremos a boa e velha novela piegas
Reclamaremos que a comida está sem sal
E sem querer faremos um poema sobre a falta de sal do mundo

Por que, por mais que tente, um poeta é sempre um poeta 

Não podemos simplesmente pendurarmos nossos casacos e dormirmos tranqüilamente
Seria bem mais fácil se pudesse ser assim, mas...
O mundo caducou e nada mais resta além de lirilizá-lo
Mesmo que fiquemos loucos (não sempre o fomos?)

Novamente caio em contradição em virtude da natureza poética 

Isso prova que não é o poeta que faz a poesia
Mas a poesia é que leva o poeta
E poeta é aquele que se deixa levar por ela sem ter medo
De caducar junto com o mundo 

Não importa. Um último gesto involuntário de um poeta sendo sufocado

Vitimado por contas, faróis, recibos e tratamento capilar com resultados em duas semanas 
Hoje não é apenas um dia triste para a escrivinhatura universal
Hoje é apenas o dia onde se percebeu que no final da linha tinha um ponto final
Tinha um ponto final no final da linha
No final da linha tinha um ponto final 

Quem sabe algum desavisado comece, daqui há uns tempos, a poetizar por aí

Achando que o mundo é torto e que ele é mais torto ainda 
Certamente se ele não pirar (ou virar funcionário do Banco do Brasil)
Vou estar na primeira fila aplaudindo-o de pé
Pensando onde diabos eu deixei minha pena, caneta ou teclado.

(Tenho certeza que Drummond ficaria orgulhoso desse escrito que o Luiz fez quando era mais jovem... Eu sou simplesmente apaixonada pela escrita dele! Cada vez que leio algo que ele escreveu eu me sinto orgulhosa por saber que ele fez parte da minha vida, mesmo a distância, e ver o grande cara que ele se tornou.)


No coletivo era o blog do Luiz, pra quem curtiu seu estilo de escrita, lá tem mais textos, só é uma pena que ele tenha parado de atualizar há mais de dois anos!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Há dez anos atrás...


Quem escreve as bulas? - Mario Prata

Quando me perguntam a profissão e eu digo que sou escritor, logo vem outra em cima: de quê? De tudo, minha senhora. De tudo, menos de bula. Romance, cinema, teatro, televisão, poesia, ensaios, tudo-tudo, menos bula!
Não que eu não aprecie as bulas. Pelo contrário. Adoro lê-las. E com atenção. E, sempre, depois de ler uma, já começo a sentir todas as reações adversas.
Admiro, invejo esse colega que escreve bulas. Fico imaginando a cara dele, como deve ser a sua casa. Que papo tal escrivão deve levar com a mulher e com os vizinhos?
Tal remédio é contra-indicado a pacientes sensíveis às benzodiazepinas e em pacientes portadores de miastenia gravis (sic). Dá vontade de telefonar para o autor e perguntar como é que eu vou saber se sou sensível e portador.
Quanto ele ganha por bula? Será que ele leva os obrigatórios 10 por cento de direitos autorais? Merecem, são gênios.
Jamais, numa peça de teatro, num roteiro de um filme ou mesmo numa simples crônica, conseguiria a concisão seguinte: é apresentado sob forma de uma solução isotônica (que lindo!) de cloreto de sódio, que não altera a fisiologia das células da mucosa nasal, em associação com cloreto de benzalcônio. Sabe o que é? O velho e inocente, Rinosoro.
Vejam o texto seguinte e sintam na narrativa como o autor é sádico: você poderá ter sonolência, fadiga transitória, sensação de inquietação, aumento de apetite, confusão acompanhada de desorientação e alucinações, estado de ansiedade, agitação, distúrbios do sono, mania, hipomania (?), agressividade, déficit de memória, bocejos, despersonalização, insônia, pesadelos, agravamento da depressão e concentração deficiente. Vertigens, delírios, tremores, distúrbios da fala, convulsões e ataxia. Pronto, tenho que ir ao dicionário ver o que é ataxia, já sentindo tudo descrito acima.
Quem mandou ler?
E quem tem úlcera pélvica não pode tomar remédio nenhum. Está condenado à morte. Toda bula odeia essa tal de úlcera pélvica. As demais úlceras entram como coadjuvantes nos textos dos autores buláticos (tem a palavra no Aurélio).
E as gestantes (é como os buláticos chamam a grávida)? Elas não podem tomar nenhum remédio. Os nobres coleguinhas odeiam a gravidez.
E, se você tem intolerância conhecida aos derivados pirazolônicos, te cuida, irmão. Deve dar em gente nascida em Pirassununga e região.
Para todo remédio uma bula diferente, um estilo próprio, um jeito de colocar a vírgula diferente.
Tudo isso para dizer que outro dia, na cama, com a parceira amada, pego uma camisinha na mesinha e abro. Sabe o que estava escrito lá dentro? Parabéns! Você adquiriu o mais avançado e seguro preservativo do mercado brasileiro. Era uma bula. Escrita por algum tarado sacana, é claro, dentro da camisinha. Claro que me entusiasmei e segui a leitura deixando a amada de lado. Broxei, é claro. Mas fiquei sabendo que o agente espermicida nonoxinol 9 é contra as DSTs.
Depois dessa informação, aí sim, voltei para a alcova. Mas e a amada, onde estava?
E lembre-se sempre: todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças. E não tome remédio sem o conhecimento do seu médico. Pode ser perigoso para a sua saúde.
E pra cabeça!

PRATA, Mario. Quem escreve as bulas? In: 100 crônicas. São Paulo :  Cartaz Editorial, 1997.





Diálogos sem nexo na Biblioteca - Parte IV

Época de inscrições do Vestibulinho nas ETECS... Muita correria e coisa e tal, muito cansaço, mas por outro lado, as doidices são maiores, o que torna tudo mais interessante! 

Ontem foi um desses dias... Uma moça após efetuar sua inscrição veio até mim para que eu pudesse imprimir a segunda via do seu boleto bancário.


- Por favor, seu CPF e a senha que você fez para a inscrição.

Espanto!
- Senha?
- Sim, a senha que você acaba de criar ao fazer a inscrição.
De repente, ela entende!
- Moça, eu não lembro!
- Sério?
- Não me lembro!
- Você faz alguma ideia do que você pode ter colocado?
- Deixa pensar...
Algum tempo e vem a luz!
- Tenta deusetudoparamim!
- Ok! (QUE TAMANHO DE SENHA É ESSA? penso eu)
- Deu?
- Não deu certo! Alguma outra sugestão?
- Tenta meudeusetudoparamim!
- Certo... (JÁ TAVA ACHANDO ENORME E ELA AINDA ACRESCENTOU MAIS COISA????)
- Nada! Mas espera um pouquinho, aqui tem como recuperar a senha! Vamos tentar! Ai eles enviam a senha para o seu e-mail.
- Moça, o e-mail que eu coloquei na inscrição não existe!
- Não? (SÁSSENHOOOOOOOORA!)
- Não!
- Nossa, moça... Era o único jeito de recuperar a senha! Eles enviam por e-mail!
- Ah, eu tenho um e-mail na verdade, mas eu esqueci a senha dele!
- Ah é? (NÃO SEI POR QUAL MOTIVO EU NÃO ESTOU MAIS ESPANTADA!)
- Sim!
- Então vamos tentar recuperar a senha do seu e-mail... 
Entro no hotmail e a saga continua.
- Aqui fala que você cadastrou um e-mail com o começo "wa....@hotmail.com" para o caso de precisar recuperar a senha!
- Ah, eu não sei que e-mail é esse não!
- Não? Mas foi você quem colocou aqui!
- Moça, nem foi esse e-mail que eu coloquei na inscrição.
RESPIRA, RESPIRA, RESPIRA...
- Certo... Então vamos tentar criar o e-mail que você colocou na inscrição, certo?
- Ok!

Entro eu na página do e-mail de novo e preencho todo o cadastro para fazer o tal e-mail pra moça... Até que percebo que o e-mail que ela colocou era o nome dela underline @hotmail.com! Pensei comigo: já devem ter criado esse e-mail assim que inauguraram o hotmail! Esquece!


- Moça, esquece, não dá pra criar o e-mail mesmo. Tem mais alguma ideia do que pode ser a sua senha? 


E então veio a sequência de senhas que não acabam mais: deusefiel, meudeusefiel, deusetudopramim, meudeusetudopramim e assim por diante!

- Moça, sinto muito, mas esgotei todas as possibilidades que eu tinha de poder ajudá-la! (QUASE MEIA HORA DEPOIS!)
- Que pena, eu queria tanto fazer a prova!

Dai a levei para o responsável para ver o que poderia ser feito... Voltei para Biblioteca e fiquei pensando... Eu tinha uma ótima sugestão de senha para ela: MEUDEUSEFIELMASMEDEIXOUESQUECERASENHA! 


Sério, da próxima vez que eu pedir a senha e alguém me disser que não lembra, vou dar meu melhor sorriso e dizer:


- Que pena, volte quando você lembrar, por favor?!


terça-feira, 7 de maio de 2013

Diálogos sem nexo na Biblioteca - Parte III

Eu e minha amiga Marta Emygdio do Dia Tenso (ótimo site, vale a pena conferir e seguir!) fomos protagonistas do diálogo sem nexo dessa noite!rs

Estávamos falando sobre A Vida, o Universo e Tudo Mais e não era o livro do Douglas Adams! (Para quem não conhece, fica a dica de leitura a Coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias (APROVEITA QUE TÁ EM PROMOÇÃO, GENTE!rs)

Voltando ao diálogo, bem, não vou me estender mais, vou transcrevê-lo (mais ou menos, né? A idade já tem afetado a memória significativamente!rs)

Nós falando sobre terapia e em como não depende só do profissional, ele orienta, mas somos nós quem temos que agir, enfim.

(Juliana) - Eu acredito que para resolver esse problema (um problema qualquer que não vem ao caso!rs) eu tenha que resolver meu problema afetivo primeiro.
(Marta) - Pode ser...
(Juliana) - Mas daí me falam "Então resolva!", como se fosse fácil... Não é fácil, poxa! Vou resolver meu problema afetivo com o primeiro cara que encontrar na rua então!

Nesse momento entra um homem na Biblioteca... As duas ficam mudas... Eis que olho pra Marta e...

(Juliana) - EU DISSE NA RUA!

O moço deve estar pensando até agora no motivo que tanto nos fez rir e em como a gente é feliz!rs

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Diálogos sem nexo na Biblioteca - Parte II

Em uma noite qualquer de 2012... Em um universo não muito distante... Ops! Um dia comum, com usuários incomuns!rs

Segue mais ou menos o diálogo ou a essência dele:


- Oi! Vim devolver meu livro!

- Olá!
- Eu estou devolvendo ele com dois dias de antecedência, tem problema?
- Problema algum! O problema é quando devolve depois do prazo.
- Por que?
- Porque para cada dia de atraso, você paga R$ 0,25 de multa.
- Entendi... (E faz aquela cara genial de quem está pensando e pronto para me dar o bote com alguma ideia brilhante!)
- Se para cada dia de atraso são R$ 0,25 de multa, então quer dizer que se eu devolvi o livro com dois dias de antecedência logo eu tenho direito a receber R$ 0,50?

E assim fiquei eu, estupefata! Se eu ri? Eu ri muito! Adoro gente com senso de humor, mas eu não posso pagar por ele, querido! 

Eu tô tipo assim... Sei lá!

A vontade de escrever é arrasadora... Bem que a inspiração poderia ser também.
E aquela imensa vontade de gritar para o mundo: Ei, eu continuo tentando! E estou muito bem, obrigada!
Mas tentando o que? Por que? Para quem?
Por que temos essa necessidade de demonstrar para quem quer que seja o quanto nos sentimos bem? Será que a felicidade só passa a ser genuína se for compartilhada ou esfregada na cara de alguém que talvez esteja esperando com que não estejamos nada bem?
Talvez a verdade seja totalmente oposta a isso... Quem está feliz de verdade tem tempo para ficar se preocupando em mostrar para alguém? Tem vontade de realmente dizer que está feliz em meio a tantas pessoas que nos fazem sentir culpadas por estarmos assim?
Sei lá, nem sei o porquê de estar falando sobre isso... Pra ser bem honesta, nem sei se estou feliz ou triste, mas seja lá o que estou sentindo, é algo morno! Nem mais e nem menos... Será o tão desejado equilíbrio ou estou apenas anestesiada?
E de repente me percebo não tentando provar nada pra ninguém, só me vejo buscando explicação pra tentar entender como estou e por que estou assim. E o motivo? Pouco importa.




sexta-feira, 3 de maio de 2013


"Publicar um texto é um jeito educado de dizer 'me empresta seu peito porque a dor não tá cabendo só no meu'”. Tati Bernardi




quinta-feira, 2 de maio de 2013

Diálogos sem nexo na Biblioteca

- Ué, já voltou?
- Pois é!
- Tava de férias?
- Sim! Queria ficar mais um pouco!
- Mas é bom trabalhar né?
- Eu queria estar em casa, confesso.
- É né? Ainda mais esse horário, ver uma novelinha que vocês gostam.
- Faz tanto tempo que não assisto novela.
- Comer um danone...

(Daqui pra frente não prestei mais atenção em nada! Comer um danone? Oi?)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A surpresa - Clarice Lispector

"Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo." 


LISPECTOR, Clarice. A surpresa. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro : Rocco, 1999.