sexta-feira, 26 de abril de 2019

A covardia

Já tem algum tempo
Muito tempo 
Que a covardia 
Se instalou.
Talvez aí seja sua morada
Muito antes
De mim.
Tantos caminhos 
Escolheu a contramão.
Tantas verdades
Escolheu ludibriar.
Tanto sentimento 
Escolheu se anular.
Tanto por dizer 
Escolheu se calar.
Tantas escolhas
E verdadeiramente 
Nunca escolheu.

Juliana Moretti

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Da coragem de ser quem é

Há o cansaço 
Quando finge ser 
Quem não se é.
Há a dor 
Quando se expõe,
Dá a cara pra bater
E batem
Sem dó.
Há a alegria 
Quando se é 
Quem realmente é.
E exposta
Com a cara pronta 
Espera o tapa
E não se importa mais
Se vão bater
Se vai doer.
Tenham dó, 
Essa é quem eu sou
E por ela, 
Se preciso for 
Eu morro.

Em pé.

Juliana Moretti

terça-feira, 23 de abril de 2019

A cura

Passou toda a vida
Procurando a cura 
Longe, muito longe
Fora dela.
E a cura a vida toda
Esperando pelo encontro
Perto, sempre presente 
Perdida
Dentro dela.

Juliana Moretti


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Chega.

Vai ficar andando em círculos até quando?
Já não viu que volta sempre pro mesmo ponto?
Já não se sentiu suficientemente tonto?
Chega de rodar.
Mira no horizonte e vai.
Ou não mira em nada.
Sai às cegas.
Mas sai dai.
Vai pra qualquer lugar.
Mas vai.
E vai já.

Juliana Moretti

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Tormentos..

O que realmente me atormenta? 
Penso em todos os meus tormentos passados.
Vislumbro meus tormentos aqui presentes.
Pulsando forte.
Essa dor latente.
Esse grito que sufoco e me sufoca.
Tento projetar meu futuro.
O que realmente me atormenta é a dúvida.
Algum dia conseguirei viver a calmaria,
Quando tudo que conheço é a vida em meio as minhas tormentas?

Juliana Moretti

domingo, 14 de abril de 2019

Ruínas..

 Acordo de um sonho ruim.
Estava em uma casa em chamas.
Já estou acordada.
Percebo que ainda permaneço lá.
Mas agora são apenas ruínas.
As chamas consumiram tudo dentro de mim.

Juliana Moretti


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Sobre uma mulher comum e não desalmada

Venha aqui vocês
Chega mais pertinho
Quero falar de um assunto 
Que sempre deixa muita gente incomodada. 

Não se assusta não 
Puxa uma cadeira
Abra uma cerveja 
Não me olha igual essa gente desconfiada.

Eu já te disse
Eu já mencionei
Uma vezinha sequer 
Que não sou como essa gente organizada?

É um absurdo 
Veja só minha profissão 
Chega a ser engraçado 
E essa verdade deixa muita gente intrigada.

Tem mais uma coisa
Uma coisinha só 
Essa quando dita
Sinto gente querer partir em disparada.

Isso não me abala 
Nunca foi meu sonho 
E tá tudo bem
Já não me assusta tanta gente chocada.

Pra mim é um dom
Acho a coisa mais linda
Admiro quem é
Mas já disse, eu sou gente bagunçada.

Eu me alimento mal
Perco a hora de tudo 
Sou um tremendo caos
E no momento, minha gente, tô completamente "desvitaminada".

Essa coisa insana
Já tá péssima e cansativa
Eu tô enrolando
E é só porque acho que sou gente do tipo engraçada.

Isso tudo apenas
É pra não assustar ninguém
E dizer aqui que eu
Não sei, espero que essa gente esteja preparada.

Já quis uma vez
Quis por outra pessoa 
Era o sonho dela
Descobri então que na vida a gente precisa ser ousada.

Não ter medo
Sonhar seus sonhos
Saber se posicionar 
Não aceitar que nenhuma gente te imponha nada.

Não querer ser mãe 
Fez de mim diferente 
Se assim quiserem
Eu sou numa boa taxada de gente descolada. 

Agora eu fui bacana
A verdade nem é essa
Por não querer ser mãe 
Eu por muitas vezes fui mesmo é vista como gente desalmada.

Agora volta aqui
Antes de sair correndo 
Pensa aqui comigo 
Melhor assim do que essa gente que deixa por aí tanta criança abandonada.

Juliana Moretti

quinta-feira, 28 de março de 2019

Tempo.

Talvez a gente só precise de um tempo pra respirar.
Tempo pra colocar as ideias no lugar ou pra deixar os pensamentos irem pros caminhos que eles escolherem trilhar.
Tempo pra deixar o coração bater por aquilo que ele ansiar.
Hoje eu escolhi reservar um tempo pra tentar me salvar.

Juliana Moretti



Alma.

Foi nos pequenos gestos que eu conheci a grandiosidade de alma de muitas pessoas.
O contrário também aconteceu, foi em gestos grandiosos que conheci a miséria de outras.

Juliana Moretti

domingo, 3 de março de 2019

Sobre se importar..

Chega um ponto da vida da gente que simplesmente paramos de nos importar. 
Não naquele sentido de tocar o famoso "foda-se" só e tudo bem, não é por aí. 
A gente simplesmente para de se importar com o que vão pensar, para de se importar se parece fraco/bobo/ingênuo/HUMANO por demonstrar afeto e interesse pela vida daquela pessoa que a gente gosta, para principalmente com esses joguinhos de desinteresse, daqueles do tipo: "hoje vou me fingir indiferente com fulano pra ver se ele volta correndo pra minha vida". 
Amigo(a), as vezes a pessoa volta sim, viu? Não porque ela tá interessada em você, mas porque tá interessada no jogo. 
Então pra que se importar com esse tipo de coisa? 
Se você gosta, ainda que com receio, do seu jeito, demonstra, dê a chance da pessoa saber que você tá ali, mesmo que ela não esteja pra você. 
Se não gosta, vai embora ou demonstra que seu real interesse é outro, deixa a pessoa ter a chance de conhecer alguém que possa gostar dela de verdade, vai atrás de ter a oportunidade de gostar de alguém de verdade também. 
Mas acima disso tudo, goste antes, E MUITO ANTES, de você, SEMPRE. 
Porque aquela máxima é bem real: Antes de você ser feliz com alguém, você precisa ser feliz sozinho. 
A gente precisa sim de outras pessoas, não vivemos completamente sozinhos nesse Universo, mas a gente precisa se bastar, porque só alguém inteiro pode somar e se deixar somar na vida de alguém.
Sobre relacionamentos? 
Não entendo nada, sou a pior criatura pra aconselhar e até mesmo pra estar falando a respeito. 
Mas sobre ser humana, se importar, demonstrar, estar aberta ao diálogo e ser taxada de boba, nisso modéstia parte, eu sou ótima. 
Eu só vou embora de corações onde não me sinto mais bem vinda, porque morar no coração de alguém é uma responsabilidade muito grande, mas também é uma das melhores sensações que existem. Normalmente a gente vai fazendo morada ali tão devagar que nem percebe, mas precisa estar atento pra perceber quando é chegada a hora de arrumar as malas e partir ou de desfazê-las de uma vez e fazer daquele coração o seu lar.

Juliana Moretti

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Hoje não dá

Como explicar o que aconteceu?
Eu não sei
Foi como um desencanto.
Perdi a graça
E de repente me vi terrivelmente só.

Senti um aperto no peito
Seguido de um leve incômodo na garganta
Quando vi, eu já não via mais
Os olhos ardiam.
Os braços caiam sem forças ao lado do corpo
As pernas começavam a fraquejar
E outra vez eu me via nesse lugar tão familiar
De volta ao não tão saudoso lar.

Eu não queria ficar aqui
Mas para onde ir?
O mundo parecia não ter lugar pra mim.
Eu haveria de ser o meu próprio lar,
Ser a minha força,
Ser o meu refúgio,
A minha própria salvação.

Estar dentro da própria cabeça nunca foi confortável
Mas de repente pareceu seguro.
Mais seguro do que em corações que nunca souberam amar
Ou até mesmo dentro do próprio coração
Que se encontrava completamente inabitável.

Essa luta vinha se tornando cansativa
Essa luta contra a própria escuridão
Essa luta exaustiva pra não deixar de ser luz.
Com a escuridão sempre a espreita
E a luz sempre a um passo de sucumbir.

Juliana Moretti

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Fragmentos de mim

Eu me lembro exatamente do vestido que eu estava vestindo.
Do perfume que exalava do meu pescoço.
Do batom que coloria os lábios do meu rosto tão sem graça.
Do sentimento que habitava meu peito naqueles tempos.
Eu me lembro até do velho e confortável sapato que eu calçava naquela manhã.
Os sapatos que eu mal sabia que me levariam de encontro a você.
Lembro de como eu me encontrava tão fria.
Lembro também de como foi ter seus olhos pousados em mim.
Eu me lembro, você fez com que eu me sentisse aquecida outra vez.

Hoje vesti novamente aquele mesmo vestido.
Passei o mesmo perfume.
Não quis colorir os lábios, não via motivo para tal.
Calcei aquele mesmo velho sapato.
Eu não sabia para qual direção eu iria.
Não sabia ao encontro do que eles poderiam me levar outra vez.
Eu tinha uma certeza, não seria até você.

O sentimento que habitava o meu peito já não era mais o mesmo.
Era semelhante, ainda era o vazio, ainda era a perda.
Mas o protagonista era outro, a história era outra.
O coração tentava um novo desapego.

Eu mesma já não me sentia tão fria
Tão pouco me sentia aquecida
Afinal você não estava mais aqui,
Mas você havia estado por aqui.
E ainda que não houvesse permanecido
Mesmo que tendo estado por um breve momento
Apenas por ter passado pela minha vida
Fez com que ao menos eu permanecesse morna.

Contemplo mais uma vez minha imagem no espelho.
Tenho a sensação de que fragmentos dessa composição
Já fizeram também parte de outra história.
Sorrio.
Mas que grande confusão isso poderia causar
Se alguém ao menos se importasse com o que eu digo.
Ou não.
Quem se importa com o que dizem os sentimentais?

Juliana Moretti




segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Anunciando o fim dos tempos..

Saudade tem nome de arcanjo.

Seu nome por todos os lugares.

Em todas as ruas por onde eu ando
Em cada canto que eu existo
Em cada pessoa que eu esbarro
Em cada pensamento do meu dia
Em cada palavra que não digo
Em todo esse sentimento
Que não dedicava a ninguém
Há tanto tempo.

Juliana Moretti



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

E quem é normal afinal?

Não me leve a mal
Talvez eu só tenha
Me aproximado demais
E quantas vezes
Já nos foi alertado
Que de perto
Ninguém é normal?

Juliana Moretti

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pequenas epifanias - Caio Fernando Abreu

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com a sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala do encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia a dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeria de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome".

sábado, 17 de agosto de 2013

Os prazeres de uma vida normal - Clarice Lispector

"Pois e eu que durmo tão mal, dormi de oito da noite até seis da manhã. Dez horas: senti um orgulho pueril. Acordei com o corpo todo aumentado nas suas células. Ah, isso é vida normal, então? mas então é muito bom!
E eu que nunca fiz luxo para comer, andei há um tempo fazendo dieta para perder uns quilos a mais. Aí experimentei uma vida anormal para comer. Andava exasperada como se outros estivessem comendo o que era meu. Então, de raiva e fome, de repente comi o que bem quis. E como é bom comer, dá até vergonha. E certo orgulho também, o orgulho de se ser um corpo exigente. Ah que me perdoem os que não têm o que comer; o que vale é que esses não são os que me leem.
Outro prazer que é normal é quando escrevo o que se chama de inspirada. O pequeno êxtase da palavra fluir junto do pensamento e do sentimento: nessa hora como é bom ser uma pessoa!
E receber o telefonema de um amigo, e a comunicação de vozes e alma ser perfeita? Quando se desliga: que prazer dos outros existirem e de a gente se encontrar nos outros. Eu me encontro nos outros. Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal."

LISPECTOR, Clarice. Os prazeres de uma vida normal. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro : Rocco, 1999.



domingo, 28 de julho de 2013

"Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar - ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e pertubações do amor é o inferno. " 

[C.S. Lewis - Os quatro amores]



quarta-feira, 3 de julho de 2013

E o amor? - Clarissa Correa

"E o amor?, você me pergunta. O amor, ah, sei lá. O amor nem dá pra definir direito. Acho que é um desejo de abraçar forte o outro, com tudo o que ele traz: passado, sonhos, projetos, manias, defeitos, cheiros, gostos. Amor é querer pensar no que vem depois, ficar sonhando com essa coisa que a gente chama de futuro, vida a dois. Acho que amor é não saber direito o que ele é, mas sentir tudo o que ele traz. É você pensar em desistir e desistir de ter pensado em desistir ao olhar pra cara da pessoa, ao sentir a paz que só aquela presença traz. É nos melhores e piores momentos da sua vida pensar preciso-contar-isso-pra-ele. É não querer mais ninguém pra dividir as contas e somar os sonhos. É querer proteger o outro de qualquer mal. É ter vontade de dormir abraçado e acordar junto. É sentir que vale a pena, porque o amor não é só festa, ele também é enterro. Precisamos enterrar nosso orgulho, prepotência, ciúme, egoísmo, nossas falhas, desajustes, nosso descompasso. O amor não é sempre entendimento, mas a busca dele. Acho que o amor não é o caminho mais fácil, pois mais fácil seria dizer a-gente-não-se-entende-a-gente-não-combina-tchau-tchau. O amor é uma tentativa eterna. E se você topar entrar nessa saiba que o amor encontrou você. Seja gentil, convide-o para entrar."




Uma amizade sincera - Clarice Lispector

"Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos ti­vés­se­mos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exal­tação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabía­mos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados - mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, pre­pa­rá­va­mos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de co­nhe­ci­dos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade - posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura - seja dito de passagem, com vitória nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros."


LISPECTOR, Clarice. Uma amizade sincera. In: Felicidade Clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.